Encontro com a ancestralidade

Neste período do ano em que honramos os que já se foram, nada mais justo do que lembrar dos ensinamentos que ficam e aos quais ainda temos acesso.

** por Janaína Lemos.

tacho“Hoje eu limpei meu tacho de cobre. Com sal e limão, assim como a minha mãe me ensinou, assim como a minha avó faz e provavelmente como a mãe da minha avó fazia.

Esse tacho de cobre eu ganhei da Vó Dete. Um presente de aniversário formidável e veio acompanhado de duas formas de bolo e uma bacia de alumínio.
Ela conta que quando foi comprar, o vendedor disse que não era o presente certo para uma garota de 27, mas ela orgulhosamente rebateu: ” – O senhor não conhece a minha Janaina.”.

IMG_20191224_211542_575Abuela, a senhora acertou, a senhora sempre acerta. A benção. Aprendi a amar a cozinha porque era nela que eu me sentava confortável pra vê-la cozinhando. Foi lá que eu aprendi a trançar massa de rosca e por consequência meus cabelos. Era na cozinha que a vó punha a mesa e todo mundo se reunia pra sarar ou festejar.

Honre seus ancestrais, amem, cuidem, prestem homenagens, aprendam com eles que sobreviveram a muitas coisas antes de você. Alguns a guerra, outros a gripe espanhola, alguns a ditadura e outros a escravidão.

Aprendam as histórias das mulheres da sua família, aprendam como elas deram a luz aos seus pais e aos seus tios. Observem como prendem os cabelos e como se arrumam. Analisem cuidadosamente como elas temperam os alimentos e como cuidam das plantas, como organizam os retratos e os livros. Aprenda com a sua mãe qual o melhor remédio pra cólica ou com a sua madrinha como faz pro mingau não empelotar, procure sua tia pra saber como faz pra tirar manchas de suor da camisa, e ligue pra irmã da sua avó pra desvendar qual é o lado da porta que se deve ter espada de são Jorge, escute sua avó sobre como fazer pra massa não ter gosto de fermento ou sobre os mistérios pra se fazer uma muda de planta.

IMG_20200507_162819115Entenda como se fazia licor, pergunte sobre as músicas da época dela, pergunte de que tecido eram os vestidos, pergunte como eram feitos os vestidos, como eram os partos, investigue se havia alguma comida especial para o pós parto, se tinha alguma reza específica. Pergunte, anote, devore todas as informações que puder.

O sagrado está em você e naquilo que toda sua linhagem te entregou quando você nasceu.
O sagrado está naquilo do passado que você carrega consigo no presente.
#sagradofeminino #tradição

 

**Janaina Lemos é Cientista Social e Mestre em Políticas Publicas pela Unicamp, filha e neta de mineiras fortes, amante incorrigível das artes, quase todas, musicais, da cena, danças, escritas e agora também mágicas. Apaixonada pelos mistérios do sagrado feminino, estudante de magia e membro da Família do Conclave da Rosa e do Espinho.

Saudações ao Equinócio de Outono

**por Iam Hecatino.

O grandioso movimento da Mãe Terra nos leva a essas sinuosas nuances entre macro e micro, transformando e movimentando também nossas vidas e de todos os seres em seu corpo divino. A Própria Terra, se movendo em seu eixo, saindo de sua zona de conforto, nos convida a fazer o mesmo, mostrando nas transformações das diferentes curvas de seu corpo como podemos nos transformar juntos e conscientes ou estagnarmos, não aproveitando essas marés que nos afetam mesmo sem nosso consentimento.

O Equinócio é o momento em que o dia e a noite estão com a mesma duração de tempo. O ápice do poder do Pai Sol está na linha do equador banhando sua energia tanto ao Norte quanto ao Sul do planeta. Conforme os dias passam, nós aos poucos caminhamos rumo ao escurecer das noites mais longas, que têm seu ápice no Solstício de Inverno.

Aqui em nossa Terra tropical não temos estações tão marcadas por diferenças abruptas e contínuas de temperatura, mesmo assim são nítidas as transformações da natureza quando focamos nas sutilezas.

Tom Jobim já Cantava: “São as águas de março fechando o Verão, é promessa de vida em meu coração…”.  A poesia cantada ilustra muito bem a forma que o Grande Espírito atua resfriando a natureza e o calor exaustivo do Verão que se encerra.
Junto do Verão se encerra também uma onda de manifestação de total expansão, força e atividade, onde havia todo o poder do Pai Sol esclarecendo, dando força e foco para os grandes êxitos. Isso feito, o próximo passo agora é sentar e reavaliar, essa é a grande chave deste tempo de Poder. Desacelerar, e analisar com cuidado suas colheitas materiais e imateriais. Como está a saúde de seus feitos, atos e sentimentos? Tudo isso é seu de fato, ou no caminho pegou carga extra que não lhe convém? Você precisa mesmo de tudo isso, ou o acúmulo serve para tapar buracos emocionais?

Falando das emoções, como bem colocado no Livro “Os Quatro Saberes” da Petrucia Finkler, o Outono está na direção sagrada do Oeste, local das Águas, onde moram os nossos sentimentos profundos, nossas águas abissais. A roda das direções do livro nos exemplifica esse movimento anti horário e descendo, do portal energético e ativo do Fogo ao Norte, que é o Verão, a roda gira numa evolução constante em direção ao rio da Vida,onde tudo escorre e acumula no portal passivo, feminino cuidador do Oeste, o Outono.

Essa força precisamos invocar pra ter o equilíbrio e MATURIDADE necessárias para
lograr algum sucesso nesse processo tortuoso, onde admitimos a nós mesmos nossas
falhas e dividimos de forma justa os ganhos sem egoísmos. Precisamos copiar sempre a natureza, vendo as árvores deixando suas belas folhas morrerem para terem a certeza que conseguirão sobreviver, nós também nos desapegamos de tudo que já não nos servirá efetivamente, para não nos afogarmos em entulhos e apegos na nossa morada do Inverno, nossa caverna da Ursa, nosso Eu Interior – lugar onde nada cabe além da sua verdadeira vontade, inconsciente trabalhado e coração curado.

Então lembramos da medicina do Urso, dentro do sagrado caminho vermelho do
xamanismo que nos ensina com o movimento da hibernação desse animal. Ele se
alimenta de tudo que for possível, se preparando para a escassez da caverna onde se abrigará por todo o inverno, e quando sai de lá, na Primavera seguinte, ele busca o mel, a renovação, a doçura dessa nova oportunidade, e o ciclo recomeça.
A importância desse momento antes do “entrar na caverna” é o ponto principal. Ter a
certeza de quais alimentos que você colheu quer realmente se alimentar e nutrir-se para conseguir resistir ao longo período da sua hibernação.

wild woodTambém podemos ver o Inverno como a grande Morte, então logo, sendo o Outono um período de Maturidade, agora é o momento de se questionar sobre seus feitos e o que aprendeu e concluiu sobre essa caminhada, e o que irá levar como alimento espiritual para o próximo passo.

O festival do equinócio de Outono, que as novas tradições de bruxaria chamam de Mabon (nome de uma divindade solar Celta), relaciona se também a diversos grandes mitos representando “A Grande Descida da Deusa”. Isso se verifica nos mitos de Inanna da Suméria, de Perséphone grega ou mesmo de Dea e Dis dos mistérios da Stregheria de Raven Grimassi. Todos ao seu modo falam sobre o Emergir do Eu mais profundo em busca de respostas que só o Eu superior pode conceder, com intenção de acoplar essas realidades subjetivas.

Isso tudo vem nos dizer que, como muitas tradições e culturas que lidam com a observação da natureza e a auto observação na intenção da sincronia e aprendizado, esse Momento em que entramos – Equinócio de Outono, a grande Descida, início do ano Astrológico em Áries – nos dá esse impulso essencial, imbuído desse fogo que dá o ímpeto para conseguirmos assim entrar nos processos que nos levam ao entendimento da introspecção, análise e desapego que o momento pede.

Lembrando que o Fogo de Áries entrando de cabeça nas águas do Outono são forças antagônicas que geram o Ar, que é o poder mental e sua sabedoria Leve e elevada.
Nessa alquimia de si, sob plenos poderes e responsabilidades que assinamos com as marcas de nossos pés por sendas sagradas, fica o convite a essa amedrontadora viagem ao centro de si mesmo, onde as dores dos processos pessoais emergirão, e não será fácil, porém o renascimento derivado dessa ousadia será o Ouro brilhante no que antes era só chumbo.

Que possamos nos permitir a isso, e que a Deusa nos ampare sempre.

Que assim seja, Aho.
Iam Hecatino

 

**Iam Hecatino tem 33 anos, é leonino com lua e ascendente em aquário, casado, cabeleireiro. Na senda da Arte abençoada, já passou pela Wicca, por estudos de Bruxaria Tradicional e começou há pouco tempo estudos xamânicos, onde aprende muito, principalmente sobre si. Inicia agora esta jornada da formação do Conclave da Rosa e do Espinho na turma 2020 e nos traz este texto lindíssimo e tão profundo sobre suas percepções para o período crepuscular que adentramos. 

 

Estamos crescendo

O Conclave começou em 2015 como um projeto de formação, com a intenção de treinar bruxos para falarem uma mesma linguagem mágica a fim de formarmos um clã de trabalho e pesquisas de acordo com as afinidades que fossem surgindo.

Agora em fevereiro de 2020, a Petrucia Finkler dará início à sexta turma desta formação. O programa foi reformulado em 2018, passado a uma duração de nove meses e incluindo um retiro de práticas avançadas no final, como uma formatura. Desde 2019, passamos a ter duas edições por ano.

Isso nos levou a uma reorganização interna para acomodar o crescimento e o fluir dos trabalhos. Hoje temos um núcleo, que é composto por dez pessoas que organizam e participam dos rituais sabáticos e de encontros mensais para práticas avançadas.

Chamamos de Família Conclave todos aqueles e aquelas que concluíram a formação, não fazem parte do núcleo interno, mas gostariam de seguir trabalhando e explorando o universo da magia de forma próxima a nós. A Família inclui as pessoas que fizeram a formação online. Este grupo é maior e também participa dos mesmos treinamentos mensais avançados com o núcleo.

E temos ainda os alunos da formação que estão em processo. O mais bacana da formação é justamente a heterogeneidade de quem chega, temos pessoas com anos de estudos e práticas, e outros que chegam totalmente crus. E isso é ótimo, pois é na mistura e na revisão de técnicas muitas vezes consideradas básicas que um novo nível de compreensão e experiência é alcançado.

Quando a Casa Panteon, que foi o espaço que nos abrigou entre 2018 e 2019 foi encerrada, participamos de uma ocupação como palestrantes e expositores. Ali estávamos todos mesclados, alunos da formação, com família e com núcleo. E foi lindo!

Estamos orgulhosos do que estamos construindo, ano a ano, pessoa a pessoa. Que sigamos fortes fazendo o trabalho dos nossos Deuses aqui na Terra, e propiciando os contatos entre os planos de forma leal e comprometida, para fazermos diferença, reverberando alianças e curas entre o mundo visível e o invisível.

Seguem imagens da nossa vibrante ocupação:

Inscrições para 2019

46648918_2088088157942526_4529599400875393024_nNo último feriado, a turma 2018 de formação mágica teve a oportunidade de vivenciar seus ritos de teste e formatura dentro de um retiro espiritual em um local de muita natureza. Foi uma ideia meio arriscada, que deu muito, muito certo. E vai ficar.

Assim como o formato da própria formação foi totalmente remodelado neste ano, também esse acréscimo de um encerramento assim grandioso, com práticas avançadas de bruxaria xamânica junto à natureza, se mostrou algo tremendamente positivo.

Portanto, é com grande alegria que anuncio a abertura das inscrições para  nova turma de formação mágica, e este será o quarto ano em que este treino é oferecido.

A proposta é de um treinamento abrangente que prepara o buscador, dando material de preparo energético e bases do funcionamento da magia, junto com uma revisão e análise pessoais  profundas, algo fundamental ao processo de qualquer adepto do caminho. Também ofereço várias pitadas de tradição oral pertencentes ao universo da Bruxaria Tradicional europeia e muitas oportunidades de discussão para o estímulo a um pensamento e um senso crítico mais desenvolvidos. Este conjunto não visa conter ninguém, mas amplificar, preparar, para que cada um alce voo onde mora seu chamado da alma, confiante em saber distinguir o caminho que é de fato para si, onde poderá entoar a sua parte da grande canção.

São nove encontros mensais, presenciais, cada um com uma média 6 horas de duração. Há uma segunda turma, online, com dois encontros por mês, à noite, sempre numa quarta-feira. Se você se interessa pelo material, mas não consegue se comprometer com as datas de nenhuma das turmas, pode optar pelo programa de mentoria espiritual, que também pode ser totalmente talhado para você, e seguir seu treinamento de forma individual.

Para saber os detalhes, o que entra na formação que ofereço, datas, valores, etc, e se inscrever para tentar uma vaga, clique neste formulário: https://goo.gl/forms/THySkC1E02k2IMd32

Nos vemos em fevereiro 2019!

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Fogos Sagrados de Hécate 2018

**O seguinte relato foi escrito sobre a experiência do ritual Fogos Sagrados de Hécate, um evento mundial, sempre na lua cheia do mês de maio. O rito este ano aconteceu em meio a greve dos caminhoneiros, no dia 28/5.

 

“Em uma caverna escura, um caldeirão borbulhante chia e respinga, e três bruxas aparecem circulando em volta do caldeirão, cantando feitiços e adicionando ingredientes bizarros à poção – olho de lagartixa e pata de sapo, pelo de morcego e língua de cachorro. – Hécate  se materializa e elogia as bruxas pelo seu trabalho.”

– Macbeth. William Shakespeare. Ato 4, cena 1. –

HSF-2Depois de quase dois anos me dedicando ao meu reencontro com quem eu havia me tornado dentro da Bruxaria, eis que retorno ao meu primeiro ritual em comunidade honrando a mesma divindade a que tanto pedi por auxilio nos anos antecessores. Foi com o direcionamento dela que o Covil dos Feiticeiros nasceu, e pude me reencontrar dentro da bússola das bruxas. Eis que então fui convidado pela Petrucia, em nome do Conclave da Rosa e do Espinho, a levar um poema em homenagem a Hécate; Conclave esse ao qual também estou adentrando como um estudante e aprendendo sobre outros rumos que a Bruxaria pode me levar.

Eu me senti ansioso em estar ritualizando novamente com outras pessoas da Arte e ao mesmo tempo eufórico pois teria a chance de me manifestar sobre Hécate ao vivo, levando um pouco sobre o que ela representa pra mim, independente dos rótulos atribuídos a ela genericamente, por isso não vou me atentar em escrever sobre Hécate de forma categórica, existem muitos materiais e artigos seguindo tal raciocínio; o que eu quero é descrever minha experiência pessoal com essa divindade tão aclamada pelas bruxas.

Em contrapartida a tudo isso, eu também senti que seria um desafio esse ritual, não só para mim, mas para todos os que se propuseram a ir. O céu já estava anunciando tempos tumultuados e assim foi para os que compareceram e acredito eu que esse fato fez com que a energia que nos envolveu fosse ao mesmo tempo intensa e receptiva desde antes da ritualística iniciar pois havíamos transposto o medo da crise da gasolina para estar ali, honrando uma Deusa que ouviu a todos em diferentes momentos, e isso criou uma harmonia entre nós, um silencioso entendimento, fazendo com que o ritual tivesse algo de intimista nos envolvendo.

O ritual foi lindo, e não sei se há uma forma de descrever as emoções que transitaram por ali naquelas horas mágicas. Passamos pelas tochas, pela limpeza, pela encruzilhada e então construímos nossa oferenda a ela coletivamente na forma de uma mandala de flores. Ouvimos cães uivando desde o início da cerimônia até o seu encerramento.

Eu declamei a minha poesia com um pé em cada mundo, exatamente como as encruzilhadas de Hécate; uma parte minha aterrada nesse mundo, uma parte transitando pelo mundo dos espíritos, e todo o meu ser encantado pela lua cheia que se encontrava acima de nós. Confesso que pouco me recordo de como foi esse momento, mas posso testemunhar sobre como foi me sentir feliz, completo e comovido durante todo o ritual. Compartilhei espaço com outra pessoa que também levou uma mensagem da Deusa, a Mary Pozza Desirée, fazendo com que todos nós ali presentes sentíssemos o quão profundo Ela nos toca e, novamente, acho que vale destacar o intimismo que mencionei acima, pois viver Hécate e estudar Hécate nos levam a conclusões diferentes, mesmo contendo similaridades, e claramente todos ali vivenciam Hécate de forma intensa, era nítida a comoção sentida.

Realizamos a sequência ritualística proposta pela Sorita d’Este dentro do “Her Sacred Fires” e então encerramos nossa homenagem. De coração preenchido, foi como se o mundo tivesse parado por alguns instantes e todas as cargas que ele acarreta, retiradas de mim. Posso relatar a emoção que senti após assimilar todo o ritual e todas as emoções que transitaram pela minha alma; uma plenitude ampla intensa, não eufórica e agitada, mas acalentadora e poderosa.

SAGRADOS FOGOS DE HÉCATE

Antania, Einalian, Lycania, Monogenes, Brimo, Dadophoros. Minhas palavras correm pelo ar. 

Na hora das bruxas eu me posto diante do altar cujos caminhos me levam à terra, ao céu e ao mar.

A escuridão se esvai a medida que Érebo cede espaço à luz do cheio luar e Nyx concede licença à grande imperatriz que vem pomposa brilhar.

Deixando minhas palavras correrem livres; bruxedos, malefícios e espíritos a conjurar, me posto de joelhos para a rainha das bruxas invocar.

Os crânios. A herança do poder que cada filho teu recebe daqueles que neste mundo em outros tempos costumavam teu nome pronunciar.

O fogo. Pálida luz que ilumina a escuridão em meio ao conturbado, terrestre, melancólico mundo que estamos a vivenciar. 

A chave. Entrada e saída por todos os portais que todas as verdadeiras bruxas aprendem, sem temor, a transitar. 

A adaga. Medeia que em sua ira colocou dois filhos para sangrar, e, sendo assim, mostrou a todos que ninguém melhor do que uma filha tua, para saber como e quando se vingar. 

Um buquê de ervas. Circe, que cozinhou, macerou e cantou canções para os mortos levantar, fazendo tremer o mundo, anunciando que nem mesmo a morte pode impedir suas crias de enfeitiçar.

Teus alvos cães cantam noite adentro os mistérios que só os caminhantes das sombras irão escutar. Anunciando a chegada daquela cujo nome emana magia ao entoar.

Hécate, tricefalos, artemísia, enodia, cthonia, phosphoros, propilaia, kourotrophos, soteira.

Mãe dos anjos, rainha dos espectros, filha das estrelas; matrona de toda pessoa que se orgulha em ser feiticeira.

Me abrace, me acolha, me lembre, de que nunca estarei só, de que tu andas ao meu lado e serás em vida e morte minha parteira.

Que se preciso for, assume além da forma de Pharmakeia, a de Deusa Guerreira.

Nós não somos os netos e netas das bruxas que não foram queimadas. Somos os ascendentes na Arte dos Indomados, tocados pelas sombras e escolhidos em nossas próprias encruzilhadas. 

Somos as novas bruxas da Tessália e os novos feiticeiros de En-dor. Somos a herança do amanhã, a beleza por trás da provação e o mistério que envolve o ciclo da renovação.

Ouça-nos então Hécate. Seja nosso pranto, nosso conjuro, poema ou oração.

Ouça com fervor as vozes que reverberam tudo aquilo que habita o nosso coração.

Vivemos a vida deliciosamente em uma eterna e eufórica alusão

A tudo o que os puritanos condenam ao inferno da perdição por medo do que podem encontrar ao se depararem com tua imensidão.

Então,

Hécate que olha pelos que caminham em genuína verdade. 

Cujas vozes são ecos de tua divindade.

Cujos poderes são aspectos de tua complexidade.

Cujos reflexos são lembretes da sua veracidade. 

Receba estes agrados, nos teus fogos sagrados, deste feiticeiro e toda essa comunidade.

– Raphael Narciso Kakazu –

– Raphael Kakazu é designer gráfico e amante da Feitiçaria arcaica, também chamada de Bruxaria Tradicional. É idealizador do Covil dos Feiticeiros e uns dos novos membros na formação do Conclave da Rosa e do Espinho. Facebook/Instagram: @covildosfeiticeiros

HSF-3

Nova turma de formação

É com muita alegria que anunciamos a programação da nova turma de formação em magia. Desta vez, há muitas modificações, a duração está mais curta, porém os encontros estão mais longos e o enfoque foi alterado. Anteriormente, a formação mágica oferecida pela Petrucia Finkler poderia ser levada para qualquer área ou vertente, era bastante neutra, digamos. Agora, o enfoque já vai de cara mais na linha da Bruxaria Tradicional Moderna, embora, claro, a maior parte do que será exposto e trabalhado pode ser levado e usado onde cada um bem entender, depois que a formação é concluída.

Enfim, datas, explicações, valores, currículo, como, quando, onde, etc… está tudo explicado no formulário:

https://goo.gl/forms/s0oNbfZQU3kFkvo53

Beltane com Sekhmet

IMG-20171104-WA0079Na Lua Cheia de Novembro passado celebramos um ritual aberto na Casa Muká, que sempre nos recebe muito bem, honrando a Deusa Sekhmet e o festival pagão de Beltane.

O período do ano anunciava um tempo de purificação depois do inverno e preparo para a exuberância da vida durante o calor do verão e ápice do Sol. Sekhmet combina muito bem com isso, pois é uma Deusa de cura, de justiça e também de festa e prazer.

Para a noite, em um grupo de quase trinta pessoas, entoamos o nome d’Ela, invocamos a presença da Deusa, oferecemos cerveja vermelha (muita!), escolhemos extirpar algo que não cabe mais nas nossas vidas, nos purificamos nos fogos de Beltane, fizemos pedidos – que foram energizados pelo coletivo.

Teve dança sagrada em reverência da Deusa, oferecida pela linda Nadja Cruz.IMG-20171104-WA0073

E ao fim, antes de partirmos para a nossa celebração de comes e bebes, clamamos pela força defensora da justiça e da cura de Sekhmet para que atue na nossa cidade, no nosso país e no nosso mundo.

 

Somos o fogo ardendo e brilhando

Somos desejo na noite andando

Clamamos por Ela aqui e agora

Dançando e transformandoIMG-20171104-WA0054

Fogos Sagrados de Hécate 2017

(Este texto se refere à noite de lua cheia em Escorpião, data mundial dedicada aos Fogos Sagrados de Hécate, que nosso Conclave teve a honra de celebrar em ritual aberto.)

Por Talita de Souza **

“Hoje ainda, se algum homem sobre a terra com belos sacrifícios conforme os ritos propicia e invoca Hécate, muita honra o acompanha facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece; e torna-o opulento, porque ela tem força.” (Hesíodo, Teogonia).

 IMG-20170511-WA0029Este texto demorou para ser elaborado, assim como todas as percepções pós ritual dentro de mim.

Quando comecei a escrevê-lo, não sabia muito bem por onde começar porém logo me veio à memória a primeira vela acendida e um amor que me inunda até hoje.

Deusa primordial, suas origens são desconhecidas, mas com certeza, é uma Deusa tão antiga quanto o mundo. Tem parte do Céu, do Mar e da Terra.

Ligada à Lua Nova e à Lua Escura, às encruzilhadas, tem poder sobre os momentos liminares de nova vida. Rege as mudanças da existência, opera nos lugares onde a água e terra se mesclam. Tem como principais símbolos os cães, as chaves, a encruzilhada e a tocha.

Conhecida por muitos epítetos, é a Guia que ilumina o caminho do Tártaro com suas tochas, é Senhora que abre e fecha caminhos com suas chaves, a de cabeça luminosa que, com sua carruagem, ilumina a escuridão e dá alento às almas perdidas em seu caminho.

Deusa Generosa, Salvadora, Padroeira, que rege a fertilidade e é capaz de dar o que lhe for pedido. 

Embora representada por três deusas, ligadas às três faces da Grande Mãe- Donzela, Mãe e Anciã – há quem a veja como uma dama sem idade definida, por estar acima dos efeitos do tempo. Há quem a veja como uma senhora, a Velha. Também conhecida como Rainha da Bruxas, é Matrona da magia, pois muitos brux@s à ela pedem proteção e poder.

 Minha história com Hécate começou há 14 anos. Durante minha adolescência eu mergulhei nos estudos de magia e bruxaria. Aos poucos fui descobrindo sobre a possibilidade de sermos regidos por Deuses e fui cada vez mais estudando sobre eles e vivenciando suas manifestações.

De verdade, só me recordo de abrir um livro e ver que, naquela data de 16 de novembro, rezava-se para Hécate, podendo-se acender uma vela preta ou qualquer vela escura, pedindo iluminação e mudanças de vida. Fui conferir e só tinha uma pequena vela verde escura e lá fui eu…lembro -me de dizer as seguintes palavras: “Abra os caminhos que julgar necessário abrir e feche os caminhos que julgar necessário fechar”. Três dias depois estava sendo entrevistada para minha primeira vaga de estágio, esta que um ano depois, se tornou meu primeiro trabalho registrado.

Naquele dia ela me ouviu e naquele dia, pela primeira vez, deixei conscientemente minha vida na mão de um Deus numa confiança e amor profundo. E desde então assim tem sido.

Mesmo dura e implacável – sim ela também o é – e por mais mudanças difíceis que tenha passado, nenhuma aconteceu a mim sem antes ela avisar, me preparar e mostrar que eu não estaria sozinha.

Meus ritos sempre foram solitários e minhas ofertas honestas e sempre aceitas. Por mais que tenha me afastado dos estudos mágicos durante certo tempo, minha devoção à ela sempre se manteve fiel.

Ao retornar à formação mágica através do Conclave, minha relação com Hécate começou a ganhar contornos mais cerimoniais. Passei a me aprofundar em suas histórias e ritos, seu altar ganhou novas dimensões físicas e ofertas mais robustas.

Dentre todas as atividades do Conclave, no início de maio iniciamos então a preparação do ritual de Fogos Sagrados e, a convite de Petrucia, ficaria de preparar um texto explicando quem era essa Deusa, foi numa tarde em sua casa, com nosso pequeno grupo, enquanto preparávamos os amuletos do ritual, lapidávamos sua estrutura, separávamos os instrumentos.

Demorei mais alguns dias e, numa segunda à noite, sentei à frente de seu altar, me coloquei à sua disposição e pedi que me mostrasse como gostaria de ser vista em sua noite.

Lembro-me apenas de vagos momentos nesse plano, pois fiquei vários minutos em sua companhia, visitando lugares sagrados, sentindo suas diversas manifestações.

Após essa viagem, me recordo apenas de minhas mãos inquietas, necessitando de caneta e quando passei a escrever, eram movimentos automáticos, eu não as dominava mais.

Então naquele momento, eu soube que poderia escolher qualquer palavra para descrevê-la, mas seriam as suas palavras que deveriam ser ouvidas.

 

O ritual.

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Tochas acesas, introdução feita. Caminhamos até o guardião, nos limpamos e nos colocamos em volta do fogo. Honramos os elementos e cada vez mais a energia em volta se tornava densa, forte e sua presença em volta de nós podia ser sentida. Naquela noite eu a vi como senhora das correntes, vestida de negro, olhando sobre todos nós, sentindo nossas intenções. Em certo momento minhas mãos cresceram de tamanho, e me vi ligada por essas correntes. Nossos ancestrais presentes, purificados. O espaço-tempo já era outro, desde quando começamos a entoar nossos diversos cantos. E desta forma permaneceu até os Sagrados Ritos terminarem. Naquela noite acordamos a terra, a Deusa nos ouviu e iluminou o caminho dentro de nós para o tempo escuro que se iniciava.

E como qualquer bom trabalho mágico realizado, a magia tem início dentro de nós.

Os Ritos dos Fogos Sagrados são, para mim, acima de tudo, acordar nossos fogos internos que iluminam nosso caminho interno. Pode-se falar sobre Hécate a partir de diversos epítetos, dar-lhes diversos atributos, mas trilhar o caminho dessa Deusa é trilhar sua própria escuridão e entender que o Fogo Sagrado que acordamos na terra naquela noite, permanece em nós e cabe a cada um mantê-lo acesso e percorrer nosso caminho de evolução.

 

Prece intuída

 

Sou o Caos

O mundo acima e abaixo

A terra que move aos seus pés

Sou a cor e a fúria

branco e negro

O caos que move o mundo

Sou a Rainha de tudo

Hécate me leva em sua carroça, Ela corta a escuridão, abre a luz com sua tocha

Ela é piedosa com os espíritos perdidos

Já foi Donzela, Mãe e Anciã antes do mundo existir

As partículas contidas no breu do mundo foram as serventes da criação

E se deu a Luz.

“E eu continuarei a reinar acima do mundo”

Sou velha, filha, sábia

Aquilo que vos é indiferente, aquilo que vos é estranho

É nesse des-conhecimento que eu moro.

Naquilo que não tem palavras

Na ante-criação

Onde mora o amor, a compaixão

Onde oferto o seio ao filho que chora

Abro os caminhos do destino com minhas chaves

Desenterro o Mal e o exponho à Luz. E assim o queimo com minha tocha

Mas sou implacável quando se perde a Ordem.

 

**Talita de Souza é terapeuta, bruxa, filha de Hécate e Odin e apaixonada por dança flamenca. Já passou pelo caminho da Bruxaria Natural e, em 2016, oficializou sua caminhada pela Bruxaria Tradicional através do Conclave da Rosa e do Espinho.

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