Nosso espaço, nossas coisas e nossos talismãs acidentais

Logo no começo da formação mágica, uma das atividades propostas foi revisar e purgar o espaço físico e tudo que se aglomera nele. Óbvio que, num grupo de mulheres, isso, de cara, causou um terror.

witch clutter

imagem de Witch Hunters: Stolen Beauty

As pessoas variam em seu grau de apego, mas mulheres, em especial, tendem a acumular memórias através de objetos físicos e também são fãs daquela ideia de que “ah, mas um dia eu posso precisar”.

Desde a adolescência eu detesto acúmulos e já fazia limpas periódicas nas minhas coisas, para horror da minha mãe, que primeiro revisava os sacos do que eu estava me desfazendo, mas depois de alguns anos, se limitava a virar o rosto e  dizer “Não quero nem ver o que tem aí dentro, não quero me incomodar.” E, só assim, com ela não vendo, eu consegui mandar embora um coelho de porcelana recheado de flores de plástico nas costas que eu ganhara da minha tia avó quando eu tinha 4 anos de idade.

Mesmo com várias mudanças nas costas, coisa que sempre obriga a gente a revisar tudo e mexer em guardados intocados há anos, nada me preparou para meu encontro com Marie Kondo e sua Mágica da Arrumação.

Sei de nossa capacidade absurda de juntar coisas, pois, já me mudei de país levando apenas uma mala e 18 meses mais tarde fiz uma garage sale para os desapegos necessários das tralhas que ninguém usava mais. Mas a ideia de “ninguém usar mais” era o que sempre havia guiado essas minhas limpas e escolhas. Eu jamais havia pensado em ver tudo que guardo  considerando se aquilo me traz ou não alegria.

Invariavelmente acumulamos demais, todo mundo que faz um mochilão ou o Caminho de Santiago relata voltar com a sensação de que possui muito além do necessário e que nossos pertences acabam pesando na nossa vida. No entanto, rapidinho, a pessoa retoma o condicionamento cumulativo baseado em sentimentos como insegurança, memória afetiva ou culpa.  Isso lá são motivos positivos para que algo ocupe espaço na nossa vida?

A natureza, de modo geral, nos ensina a não acumular; claro que o esquilo guarda nozes para o inverno austero, mas ele guarda as nozes de que precisa, se programando para aquele período específico e não fica levando todo tipo de outras coisas para sua toquinha.  Nossos corpos absorvem nutrientes e excretam tudo que é excesso. Assim também devemos aprender a deixar nosso espaço mais leve, para que o fluxo energético seja melhor e tenhamos abertura para coisas novas e para o movimento. Além de que os movimentos minimalistas estão super em voga, caso você precise de um motivo assim para se animar a fazer seu processo de desafogamento.

Há que se cuidar pois  muitos objetos acabam se tornando uma espécie de “talismã acidental”, contendo uma carga energética acumulada ao longo dos anos que realmente é capaz de nos puxar para baixo.

Um bibelô muito bonitinho que você ganhou no seu primeiro casamento pode, ao longo dos anos e depois de uma separação muito dolorida, adquirir cargas e memórias que acabam por seguir lhe conectando ao parceiro anterior e dificultando uma libertação e um novo passo na vida. Uma calça que ficava um arraso quando usávamos 36 e não conseguimos nos desfazer, na esperança de um dia poder voltar a vesti-la, acaba por, sempre que a vemos, mesmo que inconscientemente, nos cutucar com a ideia de que achamos que algo está errado hoje no nosso corpo mais arredondado e baixar nossa autoestima. Um abajur horroroso que você ganhou da tia que faleceu segue na sua sala e você nem sabe por quê.  A peça causa um mal estar inacreditável, e você deixa de usar aquela poltrona ao lado do abajur, gerando uma energia estagnada e pesada que também tranca o fluxo de sua casa.

Isso é ainda mais forte para mulheres, pois por sermos muito do corpo e da realidade física, a casa, nossa toca, acaba de fato sendo uma extensão de nosso eu. Talismãs acidentais podem inclusive contribuir para problemas de saúde, dependendo do grau de identificação que temos com nosso lar físico.

Antes de começar o Conclave, passei a Marie Kondo na minha casa e na minha vida. O resultado foi uma sensação de muita liberdade e até empoderamento, acredite. Posso dizer por experiência própria que é uma delícia você abrir seu guarda-roupa e se dar conta que pode vestir qualquer coisa, pois você ama tudo que está ali. É uma sensação que era desconhecida para mim. Tudo por que, em vez de comprar roupas novas, eu na verdade me desfiz de 2/3 do que eu já tinha.

Nem sempre a solução ou estratégia que o livro propõe é a melhor para o nosso caso. Outras ideias podem vir do site www.becomingminimalist.com, que sugere, por exemplo, um método maravilhoso de limpar gavetas.

Outra ideia é de um amigo meu, Shivian Balaris, que me ensinou a tirar foto dos objetos que guardam alguma memória afetiva, mas que não cabem mais na minha vida. Assim, remexendo as gavetas simbólicas que são nossos arquivos de imagens digitais, ainda poderemos reativar essa memória sem precisarmos ocupar o espaço físico daquilo. Vale comentar que ele é escorpionino, e, se alguém de escorpião consegue assim abrir mão de certas coisas muito queridas, todos nós podemos, inclusive os cancerianos!

Sobre os livros, sou contra o que a Marie Kondo fala em termos de arrancar páginas. Um sacrilégio! Mas sou a favor de fazermos uma limpa na nossa biblioteca sim, nem tudo que está ali tem mais a ver conosco e podem mais úteis em uma biblioteca pública ou de escola, ou na mão de outro praticante, que busca alguma tradição mágica que não ecoa mais em você.  Coragem!

Para bruxos, todas as etapas dessa purificação também trazem informações valiosas, basta que se observe que apegos, culpas e medos vêm à tona ao lidar com roupas, objetos, fotos, documentos, CDs, e tranqueiras que você guarda.

Observe seus padrões de acúmulo.Não consegue se desfazer de nada que ganha de presente? São coisas de um certo período da sua vida que te marcam mais? Exagera na quantidade por medo de um dia faltar? Não se desfaz de documentos ou contas antigas por medo de ter de se defender de algo na justiça? Qual é o seu padrão? Esse processo é de um super autoconhecimento.

E, de brinde, no meio dos badulaques da estante, pode deparar-se com um presente recebido de outro bruxo, talvez não muito bem intencionado que mandou junto do presente um “algo mais” desagradável, ou a quinquilharia que comprou numa banca de antiguidades naquela viagem ao Peru pode revelar-se com algo embutido que anda aprontando na sua casa ou desestabilizando seus esforços de melhorar sua vida.

Acima de tudo,  como bruxas precisamos estar muito cientes do tipo de energia e força que concedemos aos objetos e que tipo de acesso estamos dando àquilo que colocamos para dentro de nossas casas e de nossas vidas.

Boa limpeza!

texto de Petrucia Finkler

2 respostas em “Nosso espaço, nossas coisas e nossos talismãs acidentais

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