O Deus Cornífero

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texto de Andréa Souza*

Minha pesquisa sobre o Deus Cornífero começou como parte da minha formação no Conclave. Quando recebemos a tarefa de pesquisar um Deus ou Deusa, confesso que não soube bem por onde começar, afinal, são tantos os panteões e faces divinas. Mas os Deuses se apresentam e vão nos dando sinais, basta estarmos atentos. De repente, em todos os filmes ou comerciais que eu via (ou quando focava minha atenção) tinha a presença de chifres ou galhadas. Em meus sonhos passei a ver uma figura masculina chifruda a distância, sombreada. E como sempre acreditei no equilíbrio entre a força divina masculina e feminina, decidi mergulhar nesta pesquisa, uma vez que já tenho minha Deusa identificada.

Este post não tem a pretensão de fazer um relato histórico sobre o Deus Cornífero, pois são inúmeros os artigos publicados neste sentido, escritos por pesquisadores e historiadores. Meu objetivo aqui é refletir um pouco a cerca desta força masculina e como me conecto com ela.

Quando falamos no Deus Cornífero, podemos associar a duas imagens bem distintas: O Deus celta Cernunnos, fortemente cultuado pela Wicca, e o Diabo, do catolicismo. No entanto, dados históricos comprovam que representações divinas masculinas chifrudas estão presentes na história desde o Paleolítico e foram se ramificando e se apresentando em diversas culturas: Mesopotâmia, Índia, Egito, Grécia, entre outras.

Um parêntese aqui: O que para mim faz todo sentido, uma vez que o mesmo se deu com representações da divindade feminina.  Os dois princípios que se completam, presentes desde nossos primórdios e se transformando em sintonia.

O traço comum a todas as representações masculinas são os galhos na cabeça, que no meu entendimento, simboliza não apenas força física, mas uma sinergia com a terra, aquilo que está ao nosso redor, o que temos de mais primitivo e instintivo.  A galhada defende, mas também abre caminhos, protege e por estar presente em animais de grande porte, fala desta conexão com a vida instintiva. Tem também uma forte ligação com fertilidade e virilidade, pois ela lembra o falo ereto e não são estes dois aspectos instintivos? Existem comprovações históricas de diversos cultos a animais chifrudos (touros, alces, javalis) onde estes são os aspectos reverenciados.

devilE vamos dar um salto adiante: Quando pensamos no arcano 15 do Tarô, o Diabo, não são estas as associações que fazemos? Trazemos para este símbolo, a ligação com instintos humanos mais primitivos e carnais, alguns dizem mais baixos? (aquilo que acontece na terra? Na natureza? Sem qualquer presença do Ego ou da consciência?). Bom e aqui vai mais um sinal: Eu sempre vi este arcano como algo que é parte de nós. Confesso que não vejo uma carga negativa ou de perigo como a maior parte das pessoas. Vejo o Diabo como uma faceta nossa, em alguns momentos necessária. O cuidado é que não podemos viver só de instintos e desejos primitivos, contudo eles têm seu lugar em nosso desenvolvimento.

Se analisarmos por este lado, quando o catolicismo ganhou força e transformou a imagem do deus cornífero em Diabo, representando todo o Mal e o pecado, não era uma forma de banir qualquer contato com a força da natureza que está em nós? Nossos instintos e forças? O que é o Diabo, se não algo que nos tenta com aquilo que secretamente mais desejamos? Porém, da mesma forma que fez com a Deusa, transformada em Maria pois não seria possível excluir definitivamente a importância deste símbolo, o catolicismo reconhece que há uma parte em nós, representada pelo Deus Chifrudo, que busca esta energia primeva e que pode nos levar a lugares mais selvagens.

Neste meu contato com o Deus Chifrudo, eu não consegui nomear ainda por qual face ele se apresenta, por que acho que me relaciono com seu aspecto mais amplo, mais antigo. Teci em feltro o símbolo associado a ele e o coloquei no altar da minha Deusa e ela não o aceitou. Hoje, ele está em outro altar, com as Deusas primitivas que fiz e se deu super bem, então por enquanto, não sinto que é hora de nomeá-lo.

Quando ele se faz presente, meus sonhos são profundos, mergulho em meu mundo mais inconsciente, percebo-me mais desconectada do ambiente à minha volta, deixo meus instintos fluírem e sinto uma energia mais forte me percorrer, que se manifesta também por uma libido presente. Neste meu caminhar com o Deus Chifrudo, passei a compreender melhor meus instintos, a dar voz e espaço a eles e estou descobrindo uma força interior que me enraíza e me centra em mim mesma. Mergulhar nesta força Divina Masculina, tão conectada com aspectos primitivos, me fez rever conceitos e ideias.

O Deus Chifrudo nos convida a entrar neste universo mais selvagem e instintivo que está em nós.

*Andréa Souza é Psicóloga de formação, taróloga por paixão, há mais de dez anos, e terapeuta floral. Caminha pelo Sagrado Feminino há cinco anos e, em abril, formou-se Moon Mother. Desde 2015 participa da formação do Conclave, que lhe abriu novos horizontes e caminhos de estudo e prática.

O corpo mágico – manutenção e cuidados para uma vida longa e saudável

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Bruxos não tendem a pensar muito no seu veículo físico. Até porque a gente começa novinho, seja na adolescência ou no início da vida adulta, e a saúde é a última das preocupações para quem tem trocentos hormônios circulando, vontade de experimentar tudo e se sente imortal. Porém o corpo físico de quem trabalha com energias e magia vai sofrendo mudanças e criando sensibilidades – e até desenvolvendo doenças – ao longo de nossa vida bruxa, justamente em razão de vários de nossos excessos irresponsáveis de juventude, mas também por falta de cuidados e noção geral de como nos proteger fisicamente.

É possível que um dos vilões seja exatamente a crença equivocada em nossa exacerbada autoconfiança, de que, tendo os deuses e a magia do nosso lado, estaríamos blindados contra as mazelas que acometem os seres humanos.

O corpo, com seus muitos mistérios, forças e correntes energéticas, é na verdade o principal instrumento do mago e do bruxo. Quando não funciona bem, nossa magia não tem lastro. Cuidar bem de si inclui coisas mundanas como comer direito, dormir bem e fazer exercícios. E essas três necessidades básicas são bastante negligenciadas por quem atravessa véus e mergulha no universo do contato com outros mundos.

Quanto mais fundo vamos em nossos trabalhos, especialmente quem lida com magia visionária e transes, mais sentimos o quanto esses esforços mágicos se traduzem em esforços e desgastes energéticos do corpo físico. O corpo e a magia têm uma relação profunda também percebida por magos de antigamente, basta ler Dion Fortune e Franz Bardon, por exemplo.

Todo mundo que mexe com poderes outros, vai se deparar com questões de saúde mais cedo ou mais tarde – em geral um pouco mais tarde, nada vai acontecer antes dos trinta, e, ao batermos nos quarenta anos, começamos a pagar as contas de nossas imprudências cometidas nos primeiros anos empolgadíssimos de trabalho mágico.

Os magos mais jovenzinhos ou quem está recém começando neste caminho não veem e não estão preparados para a relação que essas práticas têm com nossa saúde. Tudo que interessa são apenas os cones de poder, instrumentos mágicos incríveis, fazer leituras de tarô em bares até altas horas e experimentar algum ritual obscuro que desencavaram de algum lugar da internet, que o amigo traduziu, e agora podem lançar ao mundo.

Essa consciência e relação entre desgaste corporal e magia é mais uma das questões que precisamos encarar de frente em uma era onde as pessoas passaram a acreditar que a bruxaria é asséptica, e que se eu vibrar em amor e luz, apenas amor e luz voltarão para mim.

Quanto mais forte a magia, mais forte é o impacto físico que ela tem. Leia isso de novo. Mais uma vez. Absorva essa mensagem e não esqueça disso jamais.

Portanto, preste atenção nos sinais e comece um regime de preparo adequado de suas energias e cuidados para diminuir o impacto, evitar doenças e lesões e tratar seu corpo com o cuidado que ele merece antes que seja tarde demais. Nosso veículo físico é sagrado e é um só. Não que a magia vá lhe deixar doente, mas o descuido com os reflexos dela pode fazer exatamente isso.

Aprenda uma modalidade de cura

Primeiro, aprenda alguma modalidade de cura ou mais de uma. Aprenda sobre ayurveda, medicina chinesa, herbalismo e fitoterápicos, alinhamentos energéticos, do-in, faça ao menos o reiki 1, etc. Quanto mais entender do funcionamento do corpo e puder ajudar aos outros e a si, melhor. Também não rejeite a medicina tradicional. Ela é necessária em muitos casos.

Não precisa saber tudo de anatomia, mas tenha uma base, e entenda principalmente como funcionam os fluxos de chi, prana, etc. no seu corpo.

Atenção a tudo que põe para dentro

Todo mundo agora tem um alimento incrível que resolve tudo, seja o óleo de coco, a farinha de linhaça dourada ou eliminar o glúten da dieta. O mesmo se dá com óleos essenciais ou ervas que as pessoas ficam fanáticas e garantem que não há outra igual. A abstinência de certos alimentos e bebidas também é usada como motivo de orgulho.

O que entra no seu corpo é assunto seu, e deve ser aquilo que o seu corpo precisa ou consegue processar. Não se guie pelo que faz fulano ou beltrano, pode não funcionar para você. E há casos em que durante certos períodos seu corpo pede que você não consuma certas coisas em razão das energias com que você está trabalhando. Passou mal? Preste atenção e respeite. Também respeite as tradições de certas conexões com divindades, por exemplo, você se abstém de cerveja porque vai fazer um ritual especial com Demeter, ou se uma divindade de repente pedir que você coma algo que não gosta, mas que está ligado à forma com que precisa preparar seu corpo para receber aquele poder específico.

Alergias e intolerâncias

Há quem defenda que nosso desmame e adaptação precoce a alimentos sólidos quando bebês pode nos predispor a sensibilidades alimentares que vão se manifestar mais tarde. E isso tem tudo a ver com o trabalho mágico. Há quem diga que quanto mais potencial mágico tiver uma criança, maior a chance de seu corpo ser sensível e reativo. E mais, nossos corpos, devido a tantas mudanças alimentares, não responde mais tão facilmente às curas oferecidas pela medicina natural. Os tratamentos vão precisar ser adaptados.

O corpo responde à entrada de poder ou a passagem de seres que vêm dos planos interiores (e precisam de nós para chegar aos planos exteriores) como se fossem invasores, e ativa nosso sistema imunológico. Caso você tenha alergias graves e sensibilidades que se desenvolveram desde a infância, isso vai desencadear uma série de reações ou até uma crise inflamatória. Se você já tem uma série de alergias e sensibilidades antes de começar, vá com muita calma e talvez repense se a bruxaria é mesmo para você.

O que ajuda? Meditações que visam calar a mente, a prática de yoga, alinhamentos energéticos e de chakras, cuidados consigo, pontos de sedação do triplo aquecedor pela medicina chinesa ajudam a diminuir essa reação.

Nosso corpo se transforma ao longo dos anos e, para o bruxo, as alterações no nosso sistema imunológico são ainda mais aparentes. O que não incomodava aos vinte, causa crises horríveis aos 35.

Para ser recompor após uma sessão de trabalho intenso, lembre de se desconectar de tudo que é mágico. Vá assistir uma bobagem na TV, caminhar no parque ou olhar vídeos de gatos no facebook. Evite temas relacionados à qualquer coisa de magia. Em termos de alimento, busque carboidratos leves (vá de acordo com suas sensibilidade) e saudáveis. Se você reage bem à aveia e arroz agora, isso pode mudar daqui alguns anos. Vá adequando. Se algo é um veneno para o seu corpo, corte. Simplesmente corte. Disciplina também é parte do caminho.

Fontes de proteína

Proteínas são outra questão. Quem escolhe ser vegetariano ou vegano, precisa se preparar porque certos tipos de magia terão efeito muito mais drástico no seu corpo enquanto outras correntes são mais acessíveis a quem não consome animais. Observe que tipo de trabalho lhe afeta mais. Da mesma forma, se não estiver disposto e cortar a carne por certos períodos, algumas operações não estarão ao seu alcance.

A autora inglesa Josephine McCarthy diz que temos de fugir dos tabus e filosofias e pensar como magos. Devemos suprir o que o corpo precisa (não o que você quer). Observar o que certas atividades nos causam, em que país e território moramos e como são os espíritos do lugar e a divindade com a qual trabalhamos. Ela observou que dependendo do lugar, é necessário comer carne, ou certas carnes, enquanto essa mesma fonte de nutrientes pode causar problemas em outras regiões do globo. Alguns espíritos do lugar podem não nos enxergar se não comermos carne, enquanto outros podem não se aproximar de nós se comermos. Alguns planos interiores são mais fáceis de acessar para veganos; outros são totalmente perigosos para quem não está aterrado comendo carne.

Se você passa mal, fica inchado ou tem gastrite, por exemplo. Em vez de ir direto para os remédios, comece a atentar para os alimentos que estão causando isso.

Antidepressivos

Respeite seus limites. A prática mágica gasta serotonina. Se estiver sofrendo de depressão e precisa tomar antidepressivos para reestruturar sua química interna, faça apenas trabalhos voltados à sua própria cura ou ritos devocionais, criações artísticas e meditações simples durante o período em que se recupera e se medica. Nada de sair fazendo contatos e desbravando novos mundos.

Se você desenvolver a síndrome das pernas inquietas, tremores, falta de sintonia no seu relógio biológico e apatia emocional, pode ser um caso de burnout e falta de dopamina. É hora de parar de trabalhar com magia e deixar que o corpo se recupere.

Álcool, THC, opiáceos e plantas de poder

Todos esses diminuem nossa capacidade de mediar e lidar com poderes e forças. E também baixam nossas defesas e proteções. É natural que quanto mais fundo você vá em trabalhos de visões, menos tolerância você tenha ao álcool.

Muito cuidado com substâncias alucinógenas. É muito diferente um pajé ou xamã usar plantas para auxiliar seus trabalhos de curas. Eles estão bem treinados e muito bem apoiados em uma série de práticas e modo de vida que vem de toda uma linhagem, com seus guardiões bem firmes e seus espíritos aliados todos a postos. Um mago moderno e urbano, acostumado a percorrer caminhos chegando inclusive a planos muito mais profundos dentro da árvore da vida, por exemplo, pode ir parar em lugares e situações muito desagradáveis, sem ter nada que fazer lá e completamente sem nenhum preparo ou proteção para aquilo. É muito diferente você fazer seu trabalho de forma consciente, com claros limites entre o mundo físico e os planos interiores. O uso de plantas serve de catapulta e passa por cima de uma série de processos que nos servem de proteção.

Porém se você é um bruxo ritualista que não usa magia visionária e não tem muito talento natural, o uso dessas plantas podem lhe auxiliar a fazer contato com certos seres. Pesquise bem a planta, descubra seus mitos e lendas, escolha uma que cresça naturalmente na região onde você está e que seu corpo possa aguentar, e vá ao encontro dela com muito, muito respeito.

Plantas de poder, uma vez ingeridas, passam a morar em nós, elas tendem a mexer no nosso DNA, digamos, e se entrelaçar conosco. Plantas professoras nos leem e, se consumidas no local, contexto, ambiente e propósito adequados, podem nos dar exatamente o que precisamos.

Processando grandes cargas energéticas

Em vários de nossos trabalhos também recebemos injeções de energia que precisam depois de tempo e repouso para serem integradas. É o caso de quando recebemos uma iniciação ou fazemos contatos com seres angélicos (não os bonitinhos com asas que você imaginou, os anjos de verdade, esquisitérrimos com formatos aterrorizantes e pouco interesse nos seres humanos). Muitas vezes, se nosso preparo e treinamento é adequado, temos filtros no lugar (e também os próprios seres nos leem e usam filtros para se comunicarem conosco sem causar nossa destruição).

Mesmo assim, todas essas instâncias exigem que a gente repouse depois, tire um tempo fazendo atividades mundanas para aterrar, coma direitinho, durma e beba bastante líquido, leia-se água, sucos naturais e chá, álcool não vale.

Se soubermos perceber e respeitar nossos limites com sabedoria, vamos sofrer menos o rebote de tudo que fazemos. A quantidade de bruxos que conheço, e vejo outros amigos comentando também, que estão com depressões graves, déficit de atenção ou doenças indiagnosticáveis, que lhes roubam muita energia e deixa-os letárgicos ou com um problema atrás do outro, é alarmante. Eu me incluo nisso. Mesmo sempre tendo sido meio CDF em higiene mágica e cuidados com a saúde, e mesmo tendo sido muito bem preparada para comportar grandes shifts energéticos nos últimos anos, estou colhendo no corpo dificuldades que provavelmente vêm de abusos cometidos ou de mero reflexo do caminho energético que escolhi.

Em resumo, quanto mais você está envolvido com trabalhos profundos de magia e transformação, mesmo que a serviço de causas nobres e maiores do que seu ego, mais dinâmicas são essas mudanças na sensibilidade física. Preste atenção a tudo. Não se prenda a filosofias externas ou mesmo às suas próprias. Elas podem não ser adequadas ao caminho que você escolheu.

O seu próprio corpo e suas reações aos trabalhos mágicos vão lhe ensinar muito mais do que qualquer professor, workshop, treinamento ou grimório.

 

**texto de Petrucia Finkler