Nova turma presencial

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Atendendo a pedidos, estamos abrindo uma nova turma presencial (São Paulo) em 2019. Veja as datas, currículo e outras informações no formulário: https://forms.gle/Sx8PiTLyztghYCr4A

 

Fogos Sagrados de Hécate 2018

**O seguinte relato foi escrito sobre a experiência do ritual Fogos Sagrados de Hécate, um evento mundial, sempre na lua cheia do mês de maio. O rito este ano aconteceu em meio a greve dos caminhoneiros, no dia 28/5.

 

“Em uma caverna escura, um caldeirão borbulhante chia e respinga, e três bruxas aparecem circulando em volta do caldeirão, cantando feitiços e adicionando ingredientes bizarros à poção – olho de lagartixa e pata de sapo, pelo de morcego e língua de cachorro. – Hécate  se materializa e elogia as bruxas pelo seu trabalho.”

– Macbeth. William Shakespeare. Ato 4, cena 1. –

HSF-2Depois de quase dois anos me dedicando ao meu reencontro com quem eu havia me tornado dentro da Bruxaria, eis que retorno ao meu primeiro ritual em comunidade honrando a mesma divindade a que tanto pedi por auxilio nos anos antecessores. Foi com o direcionamento dela que o Covil dos Feiticeiros nasceu, e pude me reencontrar dentro da bússola das bruxas. Eis que então fui convidado pela Petrucia, em nome do Conclave da Rosa e do Espinho, a levar um poema em homenagem a Hécate; Conclave esse ao qual também estou adentrando como um estudante e aprendendo sobre outros rumos que a Bruxaria pode me levar.

Eu me senti ansioso em estar ritualizando novamente com outras pessoas da Arte e ao mesmo tempo eufórico pois teria a chance de me manifestar sobre Hécate ao vivo, levando um pouco sobre o que ela representa pra mim, independente dos rótulos atribuídos a ela genericamente, por isso não vou me atentar em escrever sobre Hécate de forma categórica, existem muitos materiais e artigos seguindo tal raciocínio; o que eu quero é descrever minha experiência pessoal com essa divindade tão aclamada pelas bruxas.

Em contrapartida a tudo isso, eu também senti que seria um desafio esse ritual, não só para mim, mas para todos os que se propuseram a ir. O céu já estava anunciando tempos tumultuados e assim foi para os que compareceram e acredito eu que esse fato fez com que a energia que nos envolveu fosse ao mesmo tempo intensa e receptiva desde antes da ritualística iniciar pois havíamos transposto o medo da crise da gasolina para estar ali, honrando uma Deusa que ouviu a todos em diferentes momentos, e isso criou uma harmonia entre nós, um silencioso entendimento, fazendo com que o ritual tivesse algo de intimista nos envolvendo.

O ritual foi lindo, e não sei se há uma forma de descrever as emoções que transitaram por ali naquelas horas mágicas. Passamos pelas tochas, pela limpeza, pela encruzilhada e então construímos nossa oferenda a ela coletivamente na forma de uma mandala de flores. Ouvimos cães uivando desde o início da cerimônia até o seu encerramento.

Eu declamei a minha poesia com um pé em cada mundo, exatamente como as encruzilhadas de Hécate; uma parte minha aterrada nesse mundo, uma parte transitando pelo mundo dos espíritos, e todo o meu ser encantado pela lua cheia que se encontrava acima de nós. Confesso que pouco me recordo de como foi esse momento, mas posso testemunhar sobre como foi me sentir feliz, completo e comovido durante todo o ritual. Compartilhei espaço com outra pessoa que também levou uma mensagem da Deusa, a Mary Pozza Desirée, fazendo com que todos nós ali presentes sentíssemos o quão profundo Ela nos toca e, novamente, acho que vale destacar o intimismo que mencionei acima, pois viver Hécate e estudar Hécate nos levam a conclusões diferentes, mesmo contendo similaridades, e claramente todos ali vivenciam Hécate de forma intensa, era nítida a comoção sentida.

Realizamos a sequência ritualística proposta pela Sorita d’Este dentro do “Her Sacred Fires” e então encerramos nossa homenagem. De coração preenchido, foi como se o mundo tivesse parado por alguns instantes e todas as cargas que ele acarreta, retiradas de mim. Posso relatar a emoção que senti após assimilar todo o ritual e todas as emoções que transitaram pela minha alma; uma plenitude ampla intensa, não eufórica e agitada, mas acalentadora e poderosa.

SAGRADOS FOGOS DE HÉCATE

Antania, Einalian, Lycania, Monogenes, Brimo, Dadophoros. Minhas palavras correm pelo ar. 

Na hora das bruxas eu me posto diante do altar cujos caminhos me levam à terra, ao céu e ao mar.

A escuridão se esvai a medida que Érebo cede espaço à luz do cheio luar e Nyx concede licença à grande imperatriz que vem pomposa brilhar.

Deixando minhas palavras correrem livres; bruxedos, malefícios e espíritos a conjurar, me posto de joelhos para a rainha das bruxas invocar.

Os crânios. A herança do poder que cada filho teu recebe daqueles que neste mundo em outros tempos costumavam teu nome pronunciar.

O fogo. Pálida luz que ilumina a escuridão em meio ao conturbado, terrestre, melancólico mundo que estamos a vivenciar. 

A chave. Entrada e saída por todos os portais que todas as verdadeiras bruxas aprendem, sem temor, a transitar. 

A adaga. Medeia que em sua ira colocou dois filhos para sangrar, e, sendo assim, mostrou a todos que ninguém melhor do que uma filha tua, para saber como e quando se vingar. 

Um buquê de ervas. Circe, que cozinhou, macerou e cantou canções para os mortos levantar, fazendo tremer o mundo, anunciando que nem mesmo a morte pode impedir suas crias de enfeitiçar.

Teus alvos cães cantam noite adentro os mistérios que só os caminhantes das sombras irão escutar. Anunciando a chegada daquela cujo nome emana magia ao entoar.

Hécate, tricefalos, artemísia, enodia, cthonia, phosphoros, propilaia, kourotrophos, soteira.

Mãe dos anjos, rainha dos espectros, filha das estrelas; matrona de toda pessoa que se orgulha em ser feiticeira.

Me abrace, me acolha, me lembre, de que nunca estarei só, de que tu andas ao meu lado e serás em vida e morte minha parteira.

Que se preciso for, assume além da forma de Pharmakeia, a de Deusa Guerreira.

Nós não somos os netos e netas das bruxas que não foram queimadas. Somos os ascendentes na Arte dos Indomados, tocados pelas sombras e escolhidos em nossas próprias encruzilhadas. 

Somos as novas bruxas da Tessália e os novos feiticeiros de En-dor. Somos a herança do amanhã, a beleza por trás da provação e o mistério que envolve o ciclo da renovação.

Ouça-nos então Hécate. Seja nosso pranto, nosso conjuro, poema ou oração.

Ouça com fervor as vozes que reverberam tudo aquilo que habita o nosso coração.

Vivemos a vida deliciosamente em uma eterna e eufórica alusão

A tudo o que os puritanos condenam ao inferno da perdição por medo do que podem encontrar ao se depararem com tua imensidão.

Então,

Hécate que olha pelos que caminham em genuína verdade. 

Cujas vozes são ecos de tua divindade.

Cujos poderes são aspectos de tua complexidade.

Cujos reflexos são lembretes da sua veracidade. 

Receba estes agrados, nos teus fogos sagrados, deste feiticeiro e toda essa comunidade.

– Raphael Narciso Kakazu –

– Raphael Kakazu é designer gráfico e amante da Feitiçaria arcaica, também chamada de Bruxaria Tradicional. É idealizador do Covil dos Feiticeiros e uns dos novos membros na formação do Conclave da Rosa e do Espinho. Facebook/Instagram: @covildosfeiticeiros

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