Saudações ao Equinócio de Outono

**por Iam Hecatino.

O grandioso movimento da Mãe Terra nos leva a essas sinuosas nuances entre macro e micro, transformando e movimentando também nossas vidas e de todos os seres em seu corpo divino. A Própria Terra, se movendo em seu eixo, saindo de sua zona de conforto, nos convida a fazer o mesmo, mostrando nas transformações das diferentes curvas de seu corpo como podemos nos transformar juntos e conscientes ou estagnarmos, não aproveitando essas marés que nos afetam mesmo sem nosso consentimento.

O Equinócio é o momento em que o dia e a noite estão com a mesma duração de tempo. O ápice do poder do Pai Sol está na linha do equador banhando sua energia tanto ao Norte quanto ao Sul do planeta. Conforme os dias passam, nós aos poucos caminhamos rumo ao escurecer das noites mais longas, que têm seu ápice no Solstício de Inverno.

Aqui em nossa Terra tropical não temos estações tão marcadas por diferenças abruptas e contínuas de temperatura, mesmo assim são nítidas as transformações da natureza quando focamos nas sutilezas.

Tom Jobim já Cantava: “São as águas de março fechando o Verão, é promessa de vida em meu coração…”.  A poesia cantada ilustra muito bem a forma que o Grande Espírito atua resfriando a natureza e o calor exaustivo do Verão que se encerra.
Junto do Verão se encerra também uma onda de manifestação de total expansão, força e atividade, onde havia todo o poder do Pai Sol esclarecendo, dando força e foco para os grandes êxitos. Isso feito, o próximo passo agora é sentar e reavaliar, essa é a grande chave deste tempo de Poder. Desacelerar, e analisar com cuidado suas colheitas materiais e imateriais. Como está a saúde de seus feitos, atos e sentimentos? Tudo isso é seu de fato, ou no caminho pegou carga extra que não lhe convém? Você precisa mesmo de tudo isso, ou o acúmulo serve para tapar buracos emocionais?

Falando das emoções, como bem colocado no Livro “Os Quatro Saberes” da Petrucia Finkler, o Outono está na direção sagrada do Oeste, local das Águas, onde moram os nossos sentimentos profundos, nossas águas abissais. A roda das direções do livro nos exemplifica esse movimento anti horário e descendo, do portal energético e ativo do Fogo ao Norte, que é o Verão, a roda gira numa evolução constante em direção ao rio da Vida,onde tudo escorre e acumula no portal passivo, feminino cuidador do Oeste, o Outono.

Essa força precisamos invocar pra ter o equilíbrio e MATURIDADE necessárias para
lograr algum sucesso nesse processo tortuoso, onde admitimos a nós mesmos nossas
falhas e dividimos de forma justa os ganhos sem egoísmos. Precisamos copiar sempre a natureza, vendo as árvores deixando suas belas folhas morrerem para terem a certeza que conseguirão sobreviver, nós também nos desapegamos de tudo que já não nos servirá efetivamente, para não nos afogarmos em entulhos e apegos na nossa morada do Inverno, nossa caverna da Ursa, nosso Eu Interior – lugar onde nada cabe além da sua verdadeira vontade, inconsciente trabalhado e coração curado.

Então lembramos da medicina do Urso, dentro do sagrado caminho vermelho do
xamanismo que nos ensina com o movimento da hibernação desse animal. Ele se
alimenta de tudo que for possível, se preparando para a escassez da caverna onde se abrigará por todo o inverno, e quando sai de lá, na Primavera seguinte, ele busca o mel, a renovação, a doçura dessa nova oportunidade, e o ciclo recomeça.
A importância desse momento antes do “entrar na caverna” é o ponto principal. Ter a
certeza de quais alimentos que você colheu quer realmente se alimentar e nutrir-se para conseguir resistir ao longo período da sua hibernação.

wild woodTambém podemos ver o Inverno como a grande Morte, então logo, sendo o Outono um período de Maturidade, agora é o momento de se questionar sobre seus feitos e o que aprendeu e concluiu sobre essa caminhada, e o que irá levar como alimento espiritual para o próximo passo.

O festival do equinócio de Outono, que as novas tradições de bruxaria chamam de Mabon (nome de uma divindade solar Celta), relaciona se também a diversos grandes mitos representando “A Grande Descida da Deusa”. Isso se verifica nos mitos de Inanna da Suméria, de Perséphone grega ou mesmo de Dea e Dis dos mistérios da Stregheria de Raven Grimassi. Todos ao seu modo falam sobre o Emergir do Eu mais profundo em busca de respostas que só o Eu superior pode conceder, com intenção de acoplar essas realidades subjetivas.

Isso tudo vem nos dizer que, como muitas tradições e culturas que lidam com a observação da natureza e a auto observação na intenção da sincronia e aprendizado, esse Momento em que entramos – Equinócio de Outono, a grande Descida, início do ano Astrológico em Áries – nos dá esse impulso essencial, imbuído desse fogo que dá o ímpeto para conseguirmos assim entrar nos processos que nos levam ao entendimento da introspecção, análise e desapego que o momento pede.

Lembrando que o Fogo de Áries entrando de cabeça nas águas do Outono são forças antagônicas que geram o Ar, que é o poder mental e sua sabedoria Leve e elevada.
Nessa alquimia de si, sob plenos poderes e responsabilidades que assinamos com as marcas de nossos pés por sendas sagradas, fica o convite a essa amedrontadora viagem ao centro de si mesmo, onde as dores dos processos pessoais emergirão, e não será fácil, porém o renascimento derivado dessa ousadia será o Ouro brilhante no que antes era só chumbo.

Que possamos nos permitir a isso, e que a Deusa nos ampare sempre.

Que assim seja, Aho.
Iam Hecatino

 

**Iam Hecatino tem 33 anos, é leonino com lua e ascendente em aquário, casado, cabeleireiro. Na senda da Arte abençoada, já passou pela Wicca, por estudos de Bruxaria Tradicional e começou há pouco tempo estudos xamânicos, onde aprende muito, principalmente sobre si. Inicia agora esta jornada da formação do Conclave da Rosa e do Espinho na turma 2020 e nos traz este texto lindíssimo e tão profundo sobre suas percepções para o período crepuscular que adentramos.